quarta-feira, 1 de julho de 2015

A MUSEOLOGIA COMUNITÁRIA MEXICANA


Recebemos em aula na semana passada Patrícia Berg de Oliveira, em um trabalho exemplar a mestre em educação trouxe sua experiência na museologia comunitária e principalmente na museologia comunitária mexicana com excelente relato de sua trajetória pessoal e profissional.
Com extremo cuidado e vários exemplos, Patrícia fez uma pequena trajetória da museologia comunitária, preocupando-se sempre, do quanto é importante pensarmos os museus não apenas para a comunidade, mas também como proposta de futuro para esta própria comunidade.
A museologia comunitária foi o resultado de dois projetos museológicos implantados no México logo após a Mesa Redonda de Santiago: o projeto “A Casa do Museu” dirigido por Mario Vázquez e os “Museus Escolares”. A finalidade da museologia comunitária é contribuir para o desenvolvimento social a partir da valorização do patrimônio cultural e natural de comunidades. Isto implica na recuperação da memória coletiva e apropriação da história local. A participação da população é uma necessidade para encontrar soluções de melhoria das suas condições de vida. As ações museológicas trabalham com temáticas coerentes e escolhidas pela comunidade e correspondem aos seus interesses e necessidades da realidade local. 
Na sua explanação, Patrícia trouxe o exemplo de sua dissertação  (Apropriações e invenções: a experiência dos museus comunitários do México (1958-1993),onde se prontificou em analisar dois programas para a Museologia Comunitária: o Programa de Desenvolvimento da Função Educativa dos Museus (Prodefem) e o Programa de Museus Comunitários e Ecomuseus, ambos implementados pelo Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) no México. Como Facilitadora em Museus Comunitários formada no 1º Curso de Formação de Facilitadores em Museus Comunitários pela União de Museus Comunitários de Oaxaca, México, pudemos, na sua fala, perceber o protagonismo do México no trabalho com a Museologia Comunitária. E mais ainda, a importância do diálogo permanente entre Museu e Educação.



segunda-feira, 29 de junho de 2015

MUSEU NACIONAL DA COLÔMBIA

Considerado o museu mais antigo da Colômbia, o Museu Nacional conta uma história rica e diversificada. A história dos povos que habitaram a região onde fica a Colômbia. Criada em 1823, o Museu tinha outro nome, se chamava Museu de História Natural. Naquele momento, seu acervo era basicamente de história natural. Ao longo dos anos, o Museu passou por várias transformações, mudando-se de endereço constantemente. Em 1948, o Museu passou para o endereço que está até hoje, com grandes coleções como a de arqueologia, a de etnografia, a de história e outra de arte – além de abrigar várias exposições temporárias. Todas elas com uma variedade de peças como por exemplo, a coleção de etnografia com cestas, roupas, objetos rituais e outros da cultura indígena. A história da luta pela independência também não fica de fora, com uma coleção de destaque, onde consta documentos do famoso Simón Bolívar. Também não pode se deixar de citar o famoso Fernando Botero, pintor colombiano conhecido por suas pinturas e esculturas de mulheres corpulentas, tornando-o um dos artistas vivos mais famosos da América Latina.

Obra de Botero
A colombiana Ana Cecília Escobar Ramirez, atualmente mestranda na FACED/UFRGS, define a trajetória do Museu nacional da Colômbia como uma história bastante intrigante e que ainda precisa ser desvendada. Ao apresentar aos alunos da disciplina de História dos Museus e dos Processos Museológicos do Curso de Museologia da UFRGS um pequeno panorama do Museu, fazendo um paralelo com a própria construção histórica da nação colombiana. Ao pesquisar nos cadernos de curadoria do próprio Museu, pode estruturar um trabalho encima dos períodos significativos da história da Colômbia. (O Nascimento, a Decadência do Museu, o Ressurgimento, a Guerra dos Mil Dias e a entrada ao Panóptico). Na atualidade, o Museu Nacional da Colômbia, se reestrutura em termos de coleções e exposições, e as coleções citadas anteriormente no texto, acabam trazendo novos horizontes, onde se pensa em mostrar uma história voltada para um público mais exigente, mais crítico, que traz, na atualidade, novas indagações sobre a história indígena, a história das mulheres e das populações rurais.



Atual sede do Museu Nacional da Colômbia












domingo, 21 de junho de 2015

Coleção e colecionismo

Somente os amantes da arte do colecionismo podem entender como é se deparar com um objeto e ver as inúmeras significações que possui. Quando entramos em um museu, não se pode com efeito dizer que todas aquelas peças que olhamos estejam lá para decorar, também estão atribuídas de inúmeros significados. E esses significados, muitas vezes, são tão particulares. Ainda que na atualidade não tenham qualquer utilidade e nem sequer sirvam para decorar os interiores onde são expostos, as peças de coleção ou de museu são, todavia, rodeadas de cuidados. Pomian (1984) no seu texto Colecção, afirma que é impossível reduzir a formação de uma coleção particular ao puro e simples entesouramento e isto é ainda mais evidente quando se trata de museus. Não se contentando em manter os objetos fora da circulação por um tempo limitado, como fazem todos os colecionadores particulares, o museu esforça-se por retê-los para sempre. E aí, entra-se em um paradoxo, se por um lado as coleções são mantidas fora das atividades econômicas propriamentente ditas, por outro lado são protegidas sendo consideradas objetos preciosos. Incrivelmente é através de uma coleção, podemos entender e captar a essência de uma geração inteira e seus diversos hábitos e questões socioculturais. As coleções são apontadas como origens dos museus.
Rijkmuseum - Casa de Bonecas
O colecionismo é muito antigo e para começar uma coleção, primeiro precisa haver uma preocupação além da utilidade. Para que um valor possa ser atribuído a um objeto por um grupo ou por um indivíduo, é necessário e suficiente que esse objeto seja útil ou que seja carregado de significado. É o significado que funda o valor de troca das peças de coleção. O Museu Nacional da Holanda: Rijksmuseum, ao visitarmos, está em suas peças rodeado de significados. Uma das peças apresentadas são lindas “casas de bonecas”, mobiliadas em detalhes, datando de 1676. Minuciosos e perfeitos detalhes dos cômodos de uma casa da burguesia, com joias de verdade em miniaturas, inacreditável!

REFERÊNCIAS:
ALMEIDA, Cícero Antônio Fonseca de . O Colecionismo Ilustrado na Gênese dos Museus Contemporâneos. Anais do Museu Histórico Nacional, v. 33, 2001.

POMIAN, Krzysztof. Colecção. In: Enciclopédia Einaudi. V. 1 (Memória-História).Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984. p. 51-86

Museu paulista um museu para o século XXI

O MUSEU PAULISTA, mais conhecido como Museu do Ipiranga, como uma instituição cultural de longa vida, foi sendo transformado e adaptado às circunstâncias dos momentos. No transcurso do tempo, os prédios passaram por transformações arquitetônicas, modificações internas, adaptações necessárias para os novos programas de uso. No texto de Raquel Glezer (2003), cita as diversas modificações sofridas ao longo do tempo, com decorações colocadas ou alteradas; o acervo diversas vezes dividido e remanejado; o entorno também foi alterado pelo crescimento urbano, pelas transformações nos meios de transporte e nas técnicas construtivas; as condições ambientais e climáticas também.
Apesar de todas as transformações de perfil museológico do Museu Paulista, na atualidade ele ainda não é um museu para o cidadão, ou seja, mesmo estando localizado em um bairro de ocupação e urbanização posterior à construção do Museu, que serve de elemento identitário aos moradores, bairro que foi industrial e operário, nada nele indica tal relação; e das transformações por que passou e passa, os atores sociais apresentados são outros. O museu que foi estruturado por uma elite paulista conservadora, para mostrar uma identidade nacional a partir da veiculação da atuação da elite política, ainda hoje, mostra a mesma coisa de antes, nenhuma crítica reforçando a nacional e tradicional estruturação social.
Referências:

GLEZER, Raquel. Um museu para o século XXI: o Museu Paulista e os desafios para os novos tempos. São Paulo: Revista da USP, 2003.



terça-feira, 16 de junho de 2015

VERDADEIRAS ATRAÇÕES TURÍSTICAS - MUSEUS EM TEMPO DE GUERRA

Os museus em Amsterdam são verdadeiras atrações turísticas. Do Rijksmuseum ao Museu Van Gogh são opções interessantíssimas como também o Museu da Heineken. Mas não poderia deixar de falar da Casa de Anne Frank e do Museu da Resistência. Fantásticos. Sempre tive curiosidade inicialmente em visitar a Casa de Anne Frank, havia lido o diário de Anne Frank e há muito já conhecia sua história. Na fila de espera estava já super na expectativa e foi totalmente de acordo com que eu imaginava. Pude visitar o vestíbulo, armazém e sala de moagem de especiarias, também o escritório de Victor Kugler e Escritório de Miep Gies, Jo Kleiman e Bep Voskuil. E inacreditavelmente chega-se ao vestíbulo com estante giratória, justamente a estante que escondia a porta de entrada do famoso “Anexo”. Mais impressionante, o quarto de Otto, Edith e Margot Frank e o de Anne Frank. Anne passava muito tempo na sua pequena escrivaninha escrevendo no diário, as paredes do quarto todas decoradas com todos os tipos de postais e cartazes. Também é claro, pode-se ver o banheiro. No dia 04 de agosto foi feita uma denúncia anônima e todos os moradores foram traídos. 

Até hoje não se sabe que foi o autor da denúncia, o que se sabe, é que foram deportados para campos de concentração. Anne morreu de tifo, em março de 1945, em Berg-Belsen. Nas vitrines da casa pode-se ver documentos pessoais dos moradores do esconderijo como também testemunhos da crescente perseguição aos judeus nesse período. Também se vê o primeiro diário axadrezado de Anne Frank.
Edifício do Museu - Casa de Anne Frank

Ao lado do Museu pequena estátua em homenagem a Anne Frank


Verzetsmuseum é o museu da resistência holandesa durante a Segunda Guerra Mundial. A Holanda foi ocupada pela Alemanha nazista durante a guerra. O museu enfatiza a ajuda de pessoas comuns as situações de guerra. Até hoje há uma problematização quanto à resistência holandesa: até que ponto ela foi forte e efetiva? Havia um partido nazista na Holanda da época, ainda que sem grande apoio popular; e, de início, a Alemanha tentava trazer os holandeses para o lado do III Reich, por serem "irmãos germânicos". Mas, justiça seja feita, a primeira e única manifestação pública de solidariedade aos judeus em país ocupado foi em Amsterdam - só podia ser em Amsterdam. A greve convocada pelo Partido Comunista parou a cidade. A partir dali a ocupação nazista passou a ser mais e mais repressiva e violenta. O museu traça uma trajetória perfeita desse momento da história.
Reconstituição do trabalho dos movimentos de resistência.

Muitas pessoas arriscavam suas vidas como ajudantes da resistência



A história da resistência em painéis interativos.





As lei restritivas já atuantes. Obrigação do uso da estrela amarela.

Pertences de homens e mulheres quando do envio aos campos de concentração



Um dos espaços expositivos contando a ascensão do III Reich.



quinta-feira, 14 de maio de 2015

OS MUSEUS BRASILEIROS NO SÉCULO XIX

O surgimento das primeiras instituições museológicas no Brasil também data do século XIX.  Em Apontamentos sobre a História do Museu, Julião (2006) descreve o percurso dos primeiros museus brasileiros. Em 1818, D. João VI criou o Museu Real, atual Museu Nacional, cujo acervo inicial se compunha de uma pequena coleção de história natural doada pelo monarca. Na segunda metade do século XIX, foram criados os museus do Exército (1864), da Marinha (1868), o Paranaense (1876), do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (1894), destacando-se, nesse cenário, dois museus etnográficos: o Paraense Emílio Goeldi, constituído em 1866, por iniciativa de uma instituição privada, transferido para o Estado em 1871 e reinaugurado em 1891, e o Paulista, conhecido como Museu do Ipiranga, surgido em 1894.
Entrada Museu Paraense Emílio Goeldi, 1902.
Fonte: http://portalmatsunaga.xpg.uol.com.br/
Ao lado do Museu Nacional, os Museus Paraense Emílio Goeldi e Paulista alinhavam-se ao modelo de museu etnográfico, que se difundiu em todo o mundo entre os anos 1870 e 1930. Caracterizados pelas pretensões enciclopédicas, eram museus dedicados à pesquisa em ciências naturais, voltados para a coleta, o estudo e a exibição de coleções naturais, de etnografia, paleontologia e arqueologia. (JULIÃO, 2006). Os três museus exerceram importante papel de preservar as riquezas locais e nacionais, agregando a produção intelectual e a prática das chamadas ciências naturais, no Brasil, em fins do século XIX. Tinham como paradigma a teoria da evolução da biologia, a partir da qual desenvolviam estudos de interpretação evolucionista social, base para a nascente antropologia. Ao buscarem discutir o homem brasileiro, através de critérios naturalistas, essas instituições contribuíram, decisivamente, para a divulgação de teorias raciais no século XIX. E também para construções simbólicas da nação brasileira, através de coleções que celebravam a riqueza e exuberância da fauna e da flora dos trópicos.

As várias “interpretações do Brasil” não dizem respeito a uma “arqueologia” das ideias pelos museus: elas permanecem vivas, embora nem sempre com a mesma configuração. O Brasil é mostrado como um país essencialmente agrícola, um país cheio de riquezas naturais e de cordialidade, mas tropical e mestiço, portanto, inferior. Um país que Oliveira Vianna (1922, p.35) vê embranquecer-se.  É o Brasil macunaímico de Mário de Andrade e da pré-revolução burguesa representada pela Semana de Arte Moderna[i]. É o Brasil moderno porque cafeeiro e paulista, autoritário e corrupto, mas recuperável através de uma democracia dita das elites, ufanista. É o país maravilhoso da casa grande e da senzala, do sobrado e do mocambo de Gilberto Freire. É um Brasil essencialmente agrícola, não visto como um país subdesenvolvido, mas como um país rico e cheio de futuro, com uma vocação agrícola definitiva. 
No livro O espetáculo das raças, Lilia Moritz Schwarcz também referencia o século XIX, como o século em que inúmeros naturalistas estrangeiros passaram por aqui, em busca de espécimes para suas coleções, dentro daquela ideia de que essas culturas se extinguiriam, estando os vestígios mais bem preservados nos museus metropolitanos. (SCHWARCZ, 1993). É importante destacar, que já nesta época, o Brasil era considerado local privilegiado para obtenção de coleções e matéria-prima necessária aos museus europeus.
O Museu Nacional, o Paulista e o Museu Paraense Emílio Goeldi, interpretavam o nosso país com coleções e acervos compostos por elementos da natureza inicialmente e que sistematicamente vão mudando sua constituição, passando a serem compostos por objetos que representassem a história da nação. Esta mudança, entretanto, privilegiou o legado da elite brasileira, assim como seus feitos históricos, mantendo à parte a participação popular. A homenagem em suas coleções à tradição e ao Império serviu também de base ao discurso nacionalista conservador e elitista, e consequentemente, a coleta de acervo privilegiava os segmentos da elite, e as exposições adotavam o tratamento factual da história, o culto à personalidade, veiculando conteúdos dogmáticos, em detrimento de uma reflexão crítica, ficando a grande maioria da população do lado de fora do museu.
A situação dos museus no Brasil, na atualidade vem se modificando. Com a Política Nacional de Museus, lançada no ano de 2003, afirmou-se, por exemplo, uma base a maior valorização do patrimônio cultural e um estímulo ao desenvolvimento, à criatividade, à produção de saberes e fazeres e ao avanço técnico-científico do campo museológico. Mesmo assim, muitos setores ainda são indiferentes para com os museus e isso vem desde a origem. A bem da verdade, quando da instalação da Corte portuguesa, onde a vida cultural em Terras Brasilis, ganha um novo alento com a criação de novas instituições culturais, essas inaugurações aconteceram sob clara influência européia, pois repetiam aqui o modus vivendi do Velho Continente. Os nobres portugueses, que aportavam no Brasil em fuga das guerras européias, tentavam imprimir aqui seus hábitos e costumes, agora também culturais. Essas foram as bases do desenvolvimento cultural e científico do Brasil.
   
Referências
JULIÃO, Letícia. Apontamentos sobre a história do museu. Caderno de Diretrizes Museológicas, Brasília: MinC, 2006.
VIANNA, Oliveira. Evolução do Povo Brasileiro, 4ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio, 1956 (a 1ª edição é de 1922).
SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo, Companhia das Letras.1993.







[i] A Semana de Arte Moderna ocorreu em uma época cheia de turbulências políticas, sociais, econômicas e culturais. As novas vanguardas estéticas surgiam e o mundo se espantava com as novas linguagens desprovidas de regras. Alvo de críticas e em parte ignorada, a Semana não foi bem entendida em sua época.

domingo, 5 de abril de 2015

O conhecido "Museu do Estado"

FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki
Criado pelo decreto-lei no 589, de 30 de janeiro de 1903, pelo Presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros, denominado “Museu do Estado”, o “Museu Julio de Castilhos” é considerado a primeira instituição museológica do Estado. Na época seu acervo abrangia artefatos indígenas, peças históricas, obras de arte, coleções de zoologia, botânica e mineralogia ou seja um verdadeiro “gabinete de curiosidades”. Composto por cerca de dez mil peças, a instituição oferece ao público as seguintes salas de exposições permanentes: Gabinete e quarto de Júlio de Castilhos, Sala Missioneira, Sala Indígena, Escravatura e Revolução Farroupilha. Também se sobressai por receber exposições temporárias, criando espaço de reflexão sobre fatos, acontecimentos e personalidades que marcaram a história do Rio Grande do Sul e também a do Brasil.